Ricardo me convidou a escrever aqui no blog e a minha primeira contribuição será de um texto que ficou oculto até agora, empoeirado nas pastas do computador, e fala de uma experiência que ocorreu comigo e com uma grande amiga, Ludmila, que carrega o mesmo sobrenome que eu.
Por que conversar com os estranhos?
Denis Meneses (meneses@gmail.com)
"No caminho, não converse com estranhos, meu filho", repetem nossas mães, como um mantra, quando somos pequenos. Crescemos, portanto, com esta idéia: a de que devemos manter uma distância daquilo que nos é estranho. A violência e os números acabam por estimular esse distanciamento. Isso fica claro quando acionamos nossos mecanismos paranóides, que estão a serviço da nossa preservação pessoal, ao avistarmos, por exemplo, um desconhecido indo de encontro a nós numa calçada.
Esse final de semana eu me dei a chance de transgredir a esse chamado da minha mãe. Fui com uma amiga colocar o papo em dia no Parque da Jaqueira. Ficamos horas conversando a fio, na grama, sobre uma singela toalha xadrez trazida por ela. Já à noite, dei-me conta que estava na hora de ir pra casa. Estávamos conversando sobre a solidão e de como a depressão virou um problema de saúde pública nos tempos atuais. Ludmila então me diz que um homem atrás de mim está deitado no banco, desde que chegamos, com um ar de tristeza, olhando o céu estrelado.
Olhei para o homem e lembrei-me imediatamente da angústia do filósofo Pascal: "eu pergunto para as estrelas e elas não me respondem". Comentei com minha amiga e perguntei se ela estava querendo cometer a última aventura do dia. Ela respondeu positivo e sugeri que fôssemos trocar umas idéias com aquele rapaz e as angústias que o cercava. Não sou budista, mas ali eu estava me dando a chance de ter uma mente principante.
Fomos conversar com ele. Perguntei se estava tudo bem e ele respondeu que sim, como todos respondem. Falamos que notamos um certo ar de tristeza nele e se ele estava afim de trocar uma idéia conosco sobre esse mundo maluco. Ele começou nos contando como era triste a vida das pessoas que estavam num presídio em que se praticavam torturas. Identificamos que era a Prisão de Guantánamo. "Há muita gente presa nesses presídios por crimes que não cometeram", desabafou.
Foi nos contando um pouco sobre a vida dele. Desempregado, não tem os estudos concluídos; solitário, não tem amigos. "É curioso como eu tenho liberdade de estar aqui e me sinto preso ao mesmo tempo por não ter uma vida digna ou falar com as pessoas", disse. Sacamos, então, porque estava sensibilizado com a prisão de Cuba: a prisão era uma metáfora de como estava sendo sua vida.
Não apenas isso. Ele questionou Deus. "Vocês sabem me dizer porque há tanta gente sofrendo e passando fome, já que Deus é uma boa pessoa?", perguntou. A metafísica não nos veio à mente naquela hora. Ela nos agradeceu por ter ido conversar com ele e nos despedimos. Saímos, eu e minha amiga, com a sensação de que o estranho é muito mais comum a nós do que a nossa vã mente pensa. E dessa vez a estrela não precisou nos responder, e sim João Paulo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe aqui sua opinião,crítica e/ou sugestão.